Bolsonaro fala muito, Guedes entrega pouco – Boletim Ponto| Brasil de Fato

https://www.brasildefato.com.br/2019/08/17/bolsonaro-fala-muito-guedes-entrega-pouco/

Bolsonaro aumenta sua dependência de Guedes, analisa o jornalista Thomas Traumann - Créditos: Marcos Corrêa / PR
Bolsonaro aumenta sua dependência de Guedes, analisa o jornalista Thomas Traumann / Marcos Corrêa / PR

Quando os problemas são de gente grande, verborragia de Bolsonaro é ineficiente

Olá,

Tudo indica que uma crise econômica global está a caminho. Porém, o governo brasileiro tem apenas duas preocupações: vender tudo o que for possível e manter suas tropas unidas pela verborragia do presidente. Analisamos este cenário e também atualizamos o escândalo do Paraguai e as manifestações em defesa da Educação. Vamos lá.

É a economia, estúpido

Na mesma semana, a guerra comercial entre China e EUA, assim como o flerte da Alemanha com a recessão, levaram as bolsas de valores a caírem. Há sinais de que uma grande crise econômica internacional vem aí. Como o Brasil vai lidar com a crise?

Quando se trata de problemas de gente grande, sabemos que a verborragia escatológica de Bolsonaro é ineficiente. E no quesito economia, o governo é um desastre: a prévia do PIB divulgada pelo Banco Central na segunda (12) mostra que a economia brasileira registrou retração de 0,13% no segundo trimestre de 2019. Como o nível de atividade já havia recuado 0,2% nos três primeiros meses deste ano, a economia brasileira pode ter entrado em uma «recessão técnica», ou seja, quando há dois trimestres seguidos de queda no PIB. Paulo Guedes, que antes anunciava que o Brasil voltaria a crescer em julho, agora pede “um ano ou dois” para entregar algum resultado. Convenhamos, só o mercado para levar a sério um ministro que diz que o Brasil não precisa da Argentina para crescer nem precisa se preocupar com o cenário internacional.

Como o governo quer retomar o crescimento econômico, já sabemos. Com privatizações, desmonte da seguridade social e desregulamentação total do trabalho. Na quinta, Guedes avisou mais uma vez que está tudo à venda: “Vamos privatizar Correios, Eletrobras e não duvido que vamos privatizar coisas maiores, viu, Castello?”, disse Guedes, se dirigindo ao presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco.

Antes disso, na terça (13), a Câmara aprovou a Medida Provisória da Liberdade Econômica, na qual apesar do enxugamento do texto original se mantiveram pontos como a liberação do trabalho aos domingos, com uma folga a cada quatro semanas. Foram revogados ainda artigos da CLT que vedavam trabalho de categorias como professores e telemarketing aos domingos, além de liberar a operação de agências bancárias aos sábados. Esta matéria resume as principais mudanças. A lógica do governo é bem simples e vai na linha do que o próprio Bolsonaro afirmava ainda na campanha, pra quem não prestou atenção: é emprego sem direitos ou nenhum emprego. A ideia é perversa e oportunista num país com milhões de desempregados. Mas é bem isso que pensa o governo e foi repetido de forma clara por um secretário do Ministério da Economia depois da aprovação da MP. O mesmo vale para o serviço público federal: vem aí uma reforma administrativa no Estado, evitando concursos, aumentando as terceirizações, reduzindo salários e restringindo o direito de greve, entre outros pontos.

Além disso, o governo não desistiu do projeto de criar o regime de capitalização através de uma PEC que seria enviada ao Congresso nas próximas semanas, de acordo com o ministro da Casa Civil. A proposta poderia ser questionada no STF, já que foi rejeitada pela Câmara e não poderia, em tese, voltar na mesma legislatura. Enquanto isso, a oposição só conseguiu adiar em uma semana o calendário da Previdência no Senado. Agora, a previsão é de que o texto seja votado em primeiro turno em 24 de setembro e o segundo, em 10 de outubro.

Em resumo, como analisa o jornalista Thomas Traumann, o mercado está exultante com o desmonte do Estado e finge não ouvir os ultrajes diários do presidente, só que o mercado não vota e quem vota tem pressa, como avisaram as eleições argentinas. E não há sinais de retomada do emprego, em função inclusive da capacidade ociosa das empresas. Desta forma, segundo Traumann, Bolsonaro aumenta sua dependência de Guedes, que por sua vez não tem muitas cartas nas mangas e nem vontade de retomar o crescimento com outra fórmula que não seja contar que um dia o empresariado resolva investir.  

Tantas você fez que ela cansou

Como já era esperado, a Noruega anunciou nesta semana o bloqueio de R$ 133 milhões em repasses ao Fundo Amazônia, acompanhando a decisão da Alemanha, que em julho anunciou o bloqueio de R$ 155 milhões. Bolsonaro fez pouco caso e rebateu de canela, mandando Angela Merkel usar o dinheiro para reflorestar a Alemanha e dizendo que a Noruega mata baleias.

A embaixada alemã reagiu com um vídeo mostrando que o país possui uma das maiores áreas florestais da Europa.

Mas não é só lá fora que a retórica de morte de Bolsonaro tem efeitos práticos. Fazendeiros do sudoeste do Pará fizeram uma demonstração de força e promoveram queimadas em massa, como protesto a favor da destruição da Amazônia. Nesta semana, foi a vez o ex-ministro Blairo Maggi alertar que o “discurso agressivo” de Bolsonaro na área ambiental vai fazer o agronegócio perder duas décadas de avanços no mercado exterior e tem combustível suficiente para cancelar o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. A senadora Kátia Abreu deu entrevista no mesmo tom. Resta saber se um dia a ficha cairá de fato, já que por enquanto o mercado tem ficado pianinho com as ações de Bolsonaro enquanto a agenda de reformas avança no Congresso.

A mamata nunca acaba

Bolsonaro havia prometido para esta semana a indicação do novo Procurador-Geral da República, mas a decisão ainda pode demorar mais um pouco. Isso porque o presidente tem ignorado a lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) e recebido potenciais candidatos a engavetadores gerais. Só um dos candidatos da lista tríplice foi recebido até agora.

Está acontecendo algo que nos governos do PT faria os comentaristas da Globo News terem síncopes ao vivo. Raquel Dodge, por exemplo, passou mais de quatro meses sentada sobre um processo contra Bolsonaro na expectativa de ser reconduzida à chefia do MPF. Somente em 6 de agosto, após perder força na disputa, mandou a investigação para a primeira instância.

Mesma frustração deve estar sentindo Deltan Dallagnol, que depois de anos de devoção teve seu nome rifado, por ser supostamente esquerdista demais para o bolsonarismo, mesmo diante dos apelos do seu parceiro Moro, cada vez mais subordinado a Bolsonaro. Como escreve um colunista do site The Intercept: “Não bastará ser um procurador de direita, mas um de extrema direita disposto a proteger o projeto de dilapidação da democracia. A família Bolsonaro quer um engavetador-geral de estimação”. Neste sentido, quem cresce nas apostas é o subprocurador Antonio Carlos Martins Soares, do Rio. No seu currículo, o item mais importante é a proximidade com a família Bolsonaro.

Neste meio tempo, o governo substitui o superintendente da Polícia Federal no RJ, ataca a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para evitar o que o Bolsonaro chamou de “devassa” nas contas de sua família, mesma preocupação de integrantes dos demais poderes da República. “Os movimentos têm o objetivo de neutralizar” a Receita e o Coaf, escreve Helena Chagas. “Ou seja, enquanto seus mecanismos funcionaram para investigar o PT e outros, estava tudo bem. Agora a brincadeira acabou.”  

As instituições funcionando

O livro “Os Onze – O STF, seus bastidores e suas crises” dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber, trouxe uma revelação dos momentos finais das eleições de 2018: para que Edson Facchin e Rosa Weber não tomassem atitude contra um coronel bolsonarista que ameaçava Weber, Dias Toffoli “lembrou que o então comandante do Exército, general (Eduardo) Villas Bôas, tinha 300 mil homens armados que majoritariamente apoiavam a candidatura de Jair Bolsonaro.”

Quase um ano depois, Toffoli parece ter perdido cada vez mais qualquer apreço pela Constituição, defendendo a uma plateia de banqueiros que a Carta Magna fosse desidratada para estimular a economia. Afeito a militares e banqueiros, um bolsonarista honorário.

Já a investigação do TSE de Facchin e Weber sobre o financiamento ilegal de redes sociais na campanha Bolsonaro parecia natimorta. Mas nesta semana, a assessora da presidência Rebecca Ribeiro Alves confirmou, em depoimento, que fake news eram distribuídas desde a casa do empresário Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro….(Leer más)

Deja un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *